quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

PROSPERANDO SEM A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

Como manter uma igreja sem enganar os fiéis


Por Alan Capriles

Desta vez meu artigo será bastante pessoal e não há como ser de outra forma. Trata-se da minha resposta a uma carta que recebi por e-mail e que me deixou bastante comovido. Pedi autorização à remetente para que eu pudesse respondê-la por aqui, em meu blog, a fim de ajudar outros pastores que talvez estejam enfrentando a mesma situação.

“Olá, pastor Alan! Eu e meu marido fomos por 20 anos da Igreja “X” onde ele foi Pastor e por motivo de estarmos cansados de tanta cobrança financeira foi que saímos. Já estava fazendo mal para a saúde física e espiritual dele! Resumindo: saímos faz 5 meses e, como ele ama pregar e salvar as pessoas, decidiu abrir uma igreja, mas nossa maior luta é manter ela aberta, pagar o aluguel e as despesas nossas e da igreja! Pastor Alan, acompanhei seus posts e gostaria de pedir esta direção para o senhor, de como o senhor faz para manter a igreja sem a teologia da prosperidade, campanhas e tudo mais. Estou vendo esta dificuldade no meu marido; afinal, ele ficou 20 anos e não tem como sair tão cedo! Por favor, nos oriente neste caso. Como vamos fazer para pedir a contribuição das pessoas sem apelar pra estas coisas? Pois vejo que quando pedimos para as pessoas dar por amor elas não dão nada, mas se você lança um propósito ou dízimo, aí algumas dão, mas não está dando pra arcar com as despesas! Por favor, gostaria da sua ajuda pra dizer como é feita a contribuição dos fiéis aí e com que argumentos.”

A pessoa que me escreveu, a qual eu não conheço, certamente deve saber um pouco da minha história pastoral. Talvez tenha sido por meio de algumas pregações e artigos, onde deixo transparecer meu “estranho” modo de pastorear. Na verdade, não sou eu que estou contrariando a maioria das igrejas de hoje em dia, mas são muitos pastores que estão na contramão do que Jesus ensinou. Se isso for mesmo um fenômeno recente, imagino que se eu pastoreasse no século 19 não haveria nada de estranho em minhas posições.

Mesmo sendo breve, a carta que recebi nos revela uma sociedade cada vez mais consumista e individualista, onde muitos pastores têm caído na tentação de atrair esse público com a promessa de bens materiais. Por isso, parece mentira que alguém consiga manter uma igreja apenas com o evangelho de Cristo. Sim, porque o verdadeiro evangelho de Cristo nada tem a ver com ganância e avareza. Muito pelo contrário, enquanto muitos pastores hoje ensinam como acumular bens materiais, o Senhor nos ordenou a repartir o que temos com os pobres. Aos olhos de Deus, rico não é aquele que mais acumula e sim o que sempre compartilha.

Eu poderia comprovar isso através de muitos versículos bíblicos, mas já o fiz em textos anteriores, tais como “Onde está o erro na teologia da prosperidade” - um artigo que não deixa margem para contestação. Noutro post, mais antigo, relatei sobre um pastor que me convidou para pregar numa campanha de sua igreja, orientando-me a que ensinasse o povo a conquistar seu carro zero e sua casa própria. Ora, ele não conversava comigo há bastante tempo e não sabia que eu havia mudado, isto é, me convertido ao verdadeiro evangelho. No culto da referida campanha iniciei a pregação com a seguinte frase: “Quem veio aqui hoje para buscar a Deus por causa de uma casa própria, ou de um carro zero, ou mesmo de qualquer outro bem deste mundo está muito enganado com Jesus e o seu evangelho. Muito enganado!” O restante da pregação, bem como o final dessa história, pode ser lido no artigo intitulado “Quebra da maldição financeira” onde também apresento diversos versículos que contrariam a pregação gananciosa de hoje em dia.

Provavelmente, foi através desses textos que a irmã do e-mail soube que pastoreio uma igreja que prospera sem a teologia da prosperidade. Sei que não sou o único, mas nossa igreja é uma das denominações que comprova ser possível permanecer fiel a Cristo e prosperar frente ao desamor e avareza deste século. Nossa prosperidade não é a riqueza material, pois não é isso que almejamos, mas sim o nosso relacionamento com Deus por meio de Jesus Cristo, que nos enche de paz, alegria e amor ao próximo. 

A partir de agora compartilho minha resposta, na esperança de ajudar também a outros pastores que estejam dispostos a abandonar a maligna teologia da prosperidade e experimentar como Deus abençoa os que permanecem fiéis à sua Palavra. Segue o que respondi:

Prezada irmã em Cristo,

Apesar de objetiva, percebo que sua carta me dá oportunidade para comentar diversos pontos interessantes. Sendo assim, vamos por partes:

“Eu e meu marido fomos por 20 anos da Igreja “X” onde ele foi Pastor e por motivo de estarmos cansados de tanta cobrança financeira foi que saímos. Já estava fazendo mal para a saúde física e espiritual dele!”

Não duvido nem por um segundo da sinceridade que você e seu marido tiveram em servir a Cristo por mais de vinte anos na igreja que você mencionou. Por outro lado, também não acredito nem por um segundo que a pressão por ofertas mais altas possa caracterizar uma verdadeira igreja cristã. Isso me preocupa muito, pois talvez vocês não estivessem numa igreja de verdade, mas numa empresa com fachada de igreja. E talvez não tenham conhecido o genuíno evangelho da graça de Cristo, mas uma religião que barganha com Deus. Por outro lado, tenho a esperança de que vocês não tenham saído de lá somente por causa do estresse provocado por “tanta cobrança financeira” e sim porque tenham despertado espiritualmente, percebendo que tal opressão nada tem a ver com o genuíno evangelho. Eu também tive o meu despertar e foi a partir de então que decidi romper por completo com esse sistema. Lembro-me do dia em que sentei ao lado de minha esposa e desabafei com ela: “Ou passamos a viver segundo o evangelho, ou prefiro deixar o pastorado.” Como sempre, ela me apoiou a fazer o que é certo, e corajosamente fomos deixando as práticas contrárias ao que Cristo ensinou. Como pastor titular tive a vantagem de não precisar mudar de igreja - do contrário eu seria mais um desigrejado, pois eu não teria pra onde ir.[1] Por outro lado, precisei começar um longo processo (que talvez nunca termine) de ensinar a meus irmãos o que Cristo realmente nos ordenou. Parte do fruto literário desta época foram textos que acabaram gerando polêmica na internet, tais como “Evento ou é vento?” e “As doze razões para eliminar o entretenimento em sua igreja”. De fato, quando escrevi esses textos, nós já havíamos abolido qualquer tipo de apresentação durante os cultos, que ficaram completamente voltados para a Palavra, a oração e o louvor de adoração. E, graças a Deus, assim continuamos até hoje. Ou seja, passamos a não mais atrair pessoas que estavam buscando na igreja uma distração, mas sim aquelas que desejavam uma verdadeira conversão. Descobri pela prática que só existem dois tipos de igreja: a verdadeira, que é centrada em Cristo e seu evangelho; e a falsa igreja, que procura agradar ao homem e realizar sua vontade. O pastor que tenta fazer as duas coisas comete um grande erro, assemelhando-se aos crentes mornos de Laodicéia, que dão náuseas no Senhor (Ap 3:15-17). Não é possível ficar em cima do muro. Vocês precisam escolher de que lado estão, se do evangelho ou do sistema gospel. Se escolherem o evangelho, precisam  deixar bem claro para os irmãos que a igreja pastoreada por vocês é muito diferente de onde vocês saíram. Não queiram ser mais uma variação do mesmo tema, pois não precisamos de mais igrejas evangélicas, mas sim de mais evangelho nas igrejas.

“Resumindo: saímos faz 5 meses e, como ele ama pregar e salvar as pessoas, decidiu abrir uma igreja, mas nossa maior luta é manter ela aberta, pagar o aluguel e as despesas nossas e da igreja!”

Sei que talvez você não tenha querido dizer isso, pois não cabe a qualquer um de nós decisão de “abrir uma igreja”. Quem deve decidir isso é Cristo, o Senhor da igreja. Somos apenas seus mordomos, nada mais. O que podemos, e devemos, é decidir obedecê-lo. Mas, supondo que realmente Deus tenha lhes confirmado que vocês formassem um novo ministério, tudo que posso lhes dizer é isto: confiem em Deus, pois a porta que Ele abre ninguém fecha, e a que Ele fecha ninguém abre. Você disse também que seu marido “ama pregar e salvar as pessoas” e isso é ótimo! Porém, fico me perguntando se ele continua pregando o que ouviu por 20 anos, ou se fez uma releitura dos evangelhos e, assim como aconteceu comigo, percebeu que precisava reformar sua teologia. Não me refiro a tornar-se calvinista ou coisa parecida, mas a se estudar o que os apóstolos pregavam (que é também o que o próprio Cristo pregava) a fim de se pregar com fidelidade as escrituras. O resultado de minha própria análise do evangelismo de Jesus e dos apóstolos foi publicado em 2014 no e-book intitulado “Manual prático para evangelização – o método de Jesus e dos apóstolos.” Humildemente, recomendo sua leitura, que está disponível gratuitamente em nosso site.

“Pastor Alan, acompanhei seus posts e gostaria de pedir esta direção para o senhor, de como o senhor faz para manter a igreja sem a teologia da prosperidade, campanhas e tudo mais. Estou vendo esta dificuldade no meu marido; afinal, ele ficou 20 anos e não tem como sair tão cedo!”

A resposta é simples, mas acho que não há como eu dizer isso sem correr o risco de ofender algum leitor. Por outro lado, a verdade precisa ser dita: Onde se prega teologia da prosperidade e se fazem campanhas pra se conseguir isso e aquilo não há ovelhas, mas bodes. Portanto, a questão se resume a isso: Vocês querem pastorear ovelhas, ou engordar bodes? Em outras palavras, vocês querem orientar pessoas a um relacionamento sadio com Deus e o próximo, ou alimentar a ganância dos que desejam se aproveitar de Deus? É simples assim! O tipo de pessoa que fará parte de sua igreja será determinado pelo tipo de mensagem que for pregada. Meu conselho é que vocês sejam radicais como eu fui, abolindo completamente (e agora mesmo) todas as campanhas e as pregações que promovem a ganância. Preguem o arrependimento de pecados e a sincera conversão a Cristo. Acredite no que vou lhe dizer: há milhares (talvez milhões) de pessoas em busca de uma igreja que ainda pregue o genuíno evangelho. São pessoas que não aguentam mais tanta conversa fiada, tanta pregação mundana, tanto amor ao dinheiro. São pessoas que querem Deus, que precisam conhecer o verdadeiro Jesus! Sejam fiéis a Cristo, sejam simples e humildes como Jesus, preguem seu evangelho, divulguem a verdadeira mensagem da salvação, e o Senhor mesmo conduzirá suas ovelhas ao aprisco.

“Por favor, nos oriente neste caso. Como vamos fazer para pedir a contribuição das pessoas sem apelar pra estas coisas? Pois vejo que quando pedimos para as pessoas dar por amor elas não dão nada, mas se você lança um propósito ou dízimo, aí algumas dão, mas não está dando pra arcar com as despesas! Por favor, gostaria da sua ajuda pra dizer como é feita a contribuição dos fiéis aí e com que argumentos.”

Meu conselho é que vocês sejam sinceros e transparentes. Digam claramente aos irmãos que Deus não precisa do dinheiro deles, mas que é um privilégio que o Senhor nos convide a fazer parte de Sua obra. Procurem sempre divulgar algo que foi recentemente adquirido com o valor das ofertas, ou que ainda está sendo pago através da fidelidade deles. Comecem (ou continuem) a ajudar missionários e pessoas carentes. Façam os irmãos perceberem que suas ofertas abençoarão essas vidas. Em nossa igreja não pedimos mais mantimentos (campanha do quilo), mas anunciamos os produtos que precisamos comprar por atacado para que nada falte nas cestas básicas que distribuímos. Assim, nossos irmãos são motivados a contribuir ainda mais, a fim de que possamos abastecer a despensa da igreja e ajudar as famílias carentes. Como pastores, precisamos despertar nos irmãos a alegria de contribuir, de ajudar o próximo. Não há outra forma de se combater a falta de amor, senão com demonstrações de amor. Se nós, como pastores, nos importarmos realmente com a dor do próximo, toda a igreja também se importará. Se os irmãos perceberem o quanto sua igreja faz a diferença na comunidade, todos eles desejarão contribuir cada vez mais para o crescimento desse ministério. Tenho mais algumas dicas. Jamais troquem a oferta por qualquer “patuá”, ou seja lá o que for. Nada de brindes para quem der a oferta acima de determinado valor, ou envelope de ofertas em que se obrigue a escrever o nome, ou que tenha espaço para um pedido de oração. Uma coisa não tem nada a ver com outra. O valor da oferta deve ser sigiloso, a fim de que o ofertante possa contribuir segundo propôs em seu coração. Outra coisa (não estou dizendo que vocês devam fazer isso, mas...) em nossa igreja não vendemos nada na cantina. Além de constranger os irmãos que não podem comprar um lanche, a cantina compete com as ofertas, pois há pessoas que deixam de ofertar, ou que ofertam menos, para que depois do culto possam comprar na cantina. Optamos por oferecer gratuitamente cafezinho ou refresco nesse espaço e compartilhamos com todos qualquer doce ou salgado que os irmãos tenham levado. Resumindo, não vendemos nada na igreja, nem trocamos oferta por qualquer coisa, mas ensinamos que ofertar é um ato de amor, um ato que será honrado por Deus. Quanto à questão do dízimo, escrevi recentemente um artigo sobre o assunto, intitulado “As controvérsias cristãs sobre o dízimo – e a destinação correta das ofertas”.

E, finalmente, procurem pregar mais nos textos do Novo Testamento. Não estou desprezando o Antigo Testamento, mas lembrando que a missão da igreja é formar discípulos de Cristo, ensinando-os a obedecer tudo o que ele nos ordenou (Cfr. Mt 28:20). Na maioria das igreja se prega mais sobre Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Salomão, Elias e Eliseu do que sobre os ensinamentos de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas foi minha insistência em pregar nesses ensinamentos que transformou o coração dos que congregam em nossa igreja, fazendo-os, entre outras coisas, ofertar por amor e não mais por interesse.

Espero ter ajudado a irmã de alguma forma, colocando-me a disposição para responder a novos questionamentos, tanto seus quanto de outros leitores. E já que seu marido é pastor e foi você quem decidiu escrever para mim, quero terminar com uma frase que minha esposa costuma repetir de vez em quando, e que me deixa emocionado, como também agora estou: “Nossa igreja é um milagre, um grande milagre...” E quem nos conhece pessoalmente sabe que é mesmo.[2]

A Deus toda a glória!

Alan Capriles

Notas

[1] Revelo minha posição sobre os desigrejados no seguinte texto e vídeo:
"Igrejados, desigrejados e o que realmente importa"
"Há salvação para os desigrejados?"

[2] Minha esposa costuma dizer isso quando comentamos sobre a assistência que, mesmo sendo uma igreja pequena, conseguimos prestar mensalmente a duas instituições, três casais de missionários (residentes no Níger, Indonésia e Moçambique) e diversas famílias carentes da comunidade e além. Não temos explicação pra isso, a não ser a providência de Deus.


4 comentários:

ARTUR FILHO disse...

Sem palavras meu irmão Pastor Alan! Maravilhoso! As chamadas igrejas se encontram inchadas, são muitos os lobos devoradores com suas doutrinas de demônios. Infelizmente alguns Cristãos não despertaram, abandonaram as Sã Doutrinas de Jesus Cristo, buscaram um outro evangelho que não é o Evangelho de Cristo. Essa nação esta debaixo do Juízo de Deus, e vai piorar muito mais ainda, vejo homens e mulheres clamando por avivamento, não acontecerá! No livro de Reis, toda vez que se levantava um Rei, temente a Deus e que restaurava o altar do Senhor, a nação prosperava de todas as formas. Mas quando se levantava um Rei que destruía o altar e adorava a outros deuses e praticava coisas malignas aos olhos do Senhor a nação inteira perecia. Enquanto esses homens malignos estiverem usando os lugares que se reúnem a igreja de Cristo para pregar essas abominações que estamos vendo por ai, a nação perecerá. Temos que pregar a mensagem da cruz para o maior numero de pessoas que pudermos, levarmos a mensagem de arrependimento, o perdão , o amor de Cristo, a salvação que só através dele podemos alcançar. Se Deus jogasse todo esse planeta no lago de fogo e enxofre ele ainda seria justo. Deus abençoe a todos! Grande abraço Alan Capriles.

Ruth F. Byrnes disse...

Olá irmão Pastor Alan Capriles,
Sempre fico feliz de ler seus posts e ver que cada vez mais esta doutrina maligna da Teologia da Prosperidade esta sendo desmascarada. Conheci o ano passado um outro pastor muito ungigo também, Pastro Elvis Guimaraes, ai do Rio de Janeiro, que esta trabalhando neste sentido também. A igreja dele é apenas 30 minutos da sua. Talvez o sr. possa entrar em contato com ele para unir forças em nome de Jesus. O email dele é: elvisaline@ig.com.br
Veja o video dele: https://www.youtube.com/watch?v=RehjiEYH5eU

julio cesar disse...

obedeça à Deus

MOACIR SOUSA FURNIEL disse...

MEU DEUS..............É ESTA A IGREJA QUE EU SONHO...............HOMENS COMPROMISSADOS COM O VERDADEIRO EVANGELHO DE CRISTO...............GLORIA AO DEUS TODO PODEROSO.